Entrevistas

Ricardo Passos – Artista Plástico

Nasceu em 1963 em Lisboa, e desde muito cedo se apaixonou pelas artes plásticas em geral. Efectuou até à actualidade, cerca de duas centenas de exposições, individuais e colectivas, no país e no estrangeiro (Espanha, França, Suiça, Finlândia, Itália, Malta, Eslovénia, Inglaterra, Dubai, China, Japão, Tailândia, EUA e Brasil).

Ricardo Passos, estudou marketing e publicidade, hoje é um artista plástico com obras espalhadas pelo mundo. Desiludiu-se com o marketing ou sempre teve dois amores?

Ser artista plástico é ter muitos amores (e desamores), é estar atento ao mundo e criar uma relação de simbiose entre a arte e a sociedade. O marketing e a publicidade, são ferramentas que me permitem tornar mais eficaz todo o processo criativo, que começa quando concebo a obra, e que nunca termina, pois cada um de nós observa e interpreta de acordo com as suas motivações, vivências, cultura, estado de espírito… desta forma, ser artista plástico é um constante comunicar, um ininterrupto passar de mensagens, que muitas vezes são subliminares, e de múltiplas interpretações, e em todo este processo, o marketing e a publicidade estão presentes.

No seu percurso artístico quais foram os factores determinantes para ser o artista que é hoje?

Não alhear-me da sociedade. Ser persistente e cumprir objectivos a que eu próprio me proponho. Acima de tudo, acreditar em mim mesmo; seguir a minha intuição.

Como é o dia a dia do artista Ricardo Passos?

Por vezes existe a ideia de que os artistas têm uma vida um pouco indisciplinada.

Há quem sinta curiosidade em saber como um artista passa os dias, como é o atelier de um artista, como se por detrás do nosso trabalho e até das nossas mentes, houvesse magia, mistério…
somos os “loucos”, dizem alguns. Uma loucura sã, digo eu, que contribui para o bem estar da mente e para que a vida flua, sem se tornar rotineira. Considero-me um “artista regrado”.
Os meus dias são, normalmente, passados no atelier, embora o processo de concepção não passe apenas pelo atelier, pois ser artista é algo que faz parte de mim, como tal sou-o a tempo inteiro, e não existe interruptor que me possa desligar, ou ligar, nem momento mais ou menos oportuno para que a luz aconteça.
Faço muitos contactos de exterior, com clientes, galerias, montagens e desmontagens de exposições, alguns trabalhos que, devido às técnicas utilizadas, exigem que sejam executados no exterior… Por tudo isso, o meu dia a dia não é rotineiro.

Um artista alimenta-se da vida mas a vida também se alimenta da arte. Consegue ser o Ricardo e esquecer o artista em algum momento da sua vida?

Se reuníssemos tudo o que disse anteriormente, quase que teríamos a resposta a esta questão. Na verdade entre o artista e a vida existe a tal relação de simbiose que já referi. O artista está atento à sociedade, e tem sempre o interruptor ligado. Por vezes sinto que tudo se torna quase obsessivo. Se um dia eu encontrasse esse interruptor e o desligasse, deixaria de ser eu. Viveria mais feliz? Não sei. Mas sei que não quero sequer procurar o interruptor. Gosto demasiado do que faço, embora o processo criativo seja acompanhado também de momentos de muita tensão e desespero.

Qual é o maior desafio, viver da arte ou conseguir ter duas profissões?

A Arte e sempre a Arte, que não encaro como profissão, mas como forma de estar. O marketing e a publicidade como os tais instrumentos de apoio para conseguir de forma mais eficaz, comunicar com o público.

O que é mais gratificante, a obra acabada, o reconhecimento do público ou uma boa crítica?

A obra acabada, normalmente não é gratificante. Sê-lo-ia se entendesse o acabá-la como o concluir de uma tarefa. É muito mais gratificante o momento em que a concebo, em que a conceptualizo, mais até que o próprio acto de a materializar.

Gratificante é o momento em que termino a montagem de uma exposição e antecede a inauguração da mesma.
O reconhecimento do público é gratificante, embora existam diversos níveis, subtis, de reconhecimento.
As críticas feitas por experts em arte, deixam-me sempre reticente, pois muitas vezes são dirigidas a um meio mais restrito e demasiado intelectualizado, pecando pela autenticidade.

Na sua opinião, quais as competências fundamentais para se ser um “bom artista”?

E o que é um “bom artista”?
Picasso e Van Gogh, ambos o foram, e serão. No entanto, tiveram posturas perante a vida, que os fizeram ter rumos bem diferentes.
Ainda assim, eu arriscaria dizer que é fundamental a autenticidade, face ao que se cria. Autenticidade no aspecto de deixar as ideias fluírem, tentando que haja o mínimo de interferências externas.

O que diria a um jovem que quer ser um artista como o Ricardo?

Diria que não queira ser como eu. Diria que queira ser ele mesmo.
Que busque dentro dele a sua essência.
Esse verdadeiro caminho, acabará por se revelar, sem que se queira ser o que não se é.
É uma caminhada longa, e árdua. É fácil desistir, mas com esforço e perseverança, o reconhecimento surgirá.

Ser regrado, trabalhar todos os dias, ter projectos, objectivos, são a força motriz para que nunca se queira encontrar o interruptor e a luz se mantenha acesa.

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